Acusações sobre Serra, ministro das Relações Exteriores, prejudicam imagem do país

Sexta-feira 28, outubro 2016

Os detalhes revelados por executivos da Odebrecht, em delação premiada, sobre suposto repasse de R$ 23 milhões, via caixa dois, à campanha presidencial de José Serra, na eleição de 2010, torna ainda mais delicada a situação do ministro das Relações Exteriores do governo Michel Temer. Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, os executivos teriam apontado dois nomes como operadores na transação. Ainda segundo a reportagem, parte do dinheiro foi transferida por meio de conta na Suíça, em um acerto com o ex-deputado federal Ronaldo Cezar Coelho, ex-PSDB e hoje no PSD, que fez parte da coordenação política da campanha.

Como ministro das Relações Exteriores, Serra representa exatamente a ponte entre o Brasil e o mundo. Neste aspecto, José Serra não é como os demais ministros, que têm uma atuação predominantemente interna. É ele que representa o país na relação com outros países, e a imagem dele está diretamente associada à imagem do próprio país. Quando pesadas denúncias são dirigidas ao ministro das Relações Exteriores, o mundo fica sabendo. O impacto negativo perante os demais países recai justamente sobre a imagem do próprio Brasil.

E isso acontece num momento muito desconfortante para o governo Michel Temer, que planeja convidar o senador Romero Jucá (PMDB-RR) para assumir o cargo de líder do governo no Congresso. Jucá foi ministro do Planejamento de Temer, e teve de deixar a função após o vazamentos de áudios de conversas com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, nas quais Jucá sugere um pacto para barrar a Lava Jato. Com peças importantes cada vez mais envolvidas em denúncias, o governo Michel Temer fica em posição ainda mais delicada.

Vale destacar ainda que não é a primeira vez que o nome do empresário Ronaldo Cezar Coelho é citado em casos envolvendo José Serra. Amigo íntimo do tucano, ele emprestava seu avião particular para Serra durante a eleição de 2010. E um dos maiores doadores individuais da campanha tucana foi justamente o diretor Guilherme Coelho, filho de Ronaldo Cezar Coelho.

O novo capítulo da denúncia de caixa dois contra José Serra, que se junta à série de escândalos de corrupção revelados nos últimos tempos, chega num momento crucial para o país, que tenta se reerguer e sair de uma grave crise econômica e política. Chega num momento em que a Petrobras, pivô e ponto de partida da teia de corrupção que sangrou os cofres públicos do país, começa a dar sinais de recuperação, de resgate de sua imagem e de retorno ao posto de maior empresa do país.

À Folha de S. Paulo, José Serra disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que “não vai se pronunciar sobre supostos vazamentos de supostas delações relativas a doações feitas ao partido em suas campanhas”, e que “reitera que não cometeu irregularidades.”

Ronaldo Cezar Coelho afirmou que não iria comentar até ter acesso aos relatos dos executivos, e negou que tenha feito arrecadação para o tucano. “Como fundador do PSDB, Ronaldo Cezar Coelho participou de todas as campanhas presidenciais da sigla”, informou o advogado de Cezar Coelho, Antônio Cláudio Mariz de Oliveira.

Se as denúncias contra o ministro José Serra forem de fato mentiras levianas, ele deve reagir à altura e processar seus delatores. Esta seria a forma correta de se defender diante de tão graves acusações a uma autoridade que ocupa atualmente uma posição tão estratégica para o país.

Vale lembrar o exemplo do então chefe da Casa Civil do governo Itamar Franco, Henrique Hargreaves. Em 1993, ele foi apontado pela CPI dos Anões do Orçamento como suspeito por desvio de dinheiro público. Imediatamente Hargreaves se licenciou para responder às acusações fora da função e para evitar problemas para Itamar, o presidente da República.

Henrique Hargreaves disse na época que jamais poderia prejudicar o governo. “Apesar de não existir nenhuma acusação sobre a Casa Civil, achei por bem me afastar. O que aconteceu foi que, na CPI do Orçamento, disseram que, como funcionário da Câmara, eu devia saber que existia o desvio, mesmo eu dizendo que não participava. Sendo assim, eu achei melhor sair”, afirmou.

Este também foi o exemplo que o então presidente Lula deu, em 2005, no caso do então ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, envolvido no mensalão.

Para o bem do país, é preciso uma postura firme e decidida de quem ocupa posições de comando e se vê citado em acusações.

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